Friday, February 5, 2016

The Great Blue Heron of Dunbar Road

por Ada Limón

That we might walk out into the woods together,
and afterwards make toast
in our sock feet, still damp from the fern’s
wet grasp, the spiky needles stuck to our
legs, that’s all I wanted, the dog in the mix,
jam sometimes, but not always. But somehow,
I’ve stopped praising you. How the valley
when you first see it—the small roads back
to your youth—is so painfully pretty at first,
then, after a month of black coffee, it’s just
another place your bullish brain exists, bothered
by itself and how hurtful human life can be.
Isn’t that how it is? You wake up some days
full of crow and shine, and then someone
has put engine coolant in the medicine
on another continent and not even crying
helps cure the idea of purposeful poison.
What kind of woman am I? What kind of man?
I’m thinking of the way my stepdad got sober,
how he never told us, just stopped drinking
and sat for a long time in the low folding chair
on the Bermuda grass reading and sometimes
soaking up the sun like he was the story’s only
subject. When he drove me to school, we decided
it would be a good day, if we saw the blue heron
in the algae-covered pond next to the road,
so that if we didn’t see it, I’d be upset. Then,
he began to lie. To tell me he’d seen it when
he hadn’t, or to suppose that it had just
taken off when we rounded the corner in
the gray car that somehow still ran, and I
would lie, too, for him. I’d say I saw it.
Heard the whoosh of wings over us.
That’s the real truth. What we told each other
to help us through the day: the great blue heron
was there, even when the pond dried up,
or froze over; it was there because it had to be.
Just now, I felt like I wanted to be alone
for a long time, in a folding chair on the lawn
with all my private agonies, but then I saw you
and the way you’re hunching over your work
like a puzzle, and I think even if I fail at everything,
I still want to point out the heron like I was taught,
still want to slow the car down to see the thing
that makes it all better, the invisible gift,
what we see when we stare long enough into nothing.

Monday, February 10, 2014

Humano

"A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme"

(Adelia Prado)

Thursday, October 10, 2013

Alta ajuda


A força do pensamento negativo
Francisco Bosco

Nunca li um livro de autoajuda. Certa vez tentei ler O segredo, porque queria entender como funcionam esses textos. Achei o livro absolutamente tedioso e, desculpem-me seus eventuais leitores, ofensivo: não só à inteligência, mas à experiência humana em geral. Pelo que posso depreender do gênero, entretanto, a autoajuda prega basicamente o famigerado “pensamento positivo”. Como, para o bem e para o mal, estou além de qualquer possibilidade de consolo, a autoajuda não me atinge. Desconheço o gênero, como disse, mas se sua característica essencial é mesmo o mantra do pensamento positivo, então posso dizer com todas as letras: a autoajuda em nada ajuda nas situações que talvez sejam as mais críticas e decisivas da vida do sujeito. Nessas, só o que pode ajudar é a vida angustiosa de um pensamento negativo.

O que chamo de situações críticas e decisivas são aquelas em que o sujeito se percebe preso a um sofrimento psíquico sistemático, fadado a repetições entristecedoras que indicam uma espécie de condenação estrutural no seu psiquismo e na sua realidade objetiva. Em face dessas situações, o pensamento positivo não é apenas ineficaz, mas nocivo: ele impedirá, com seus mantras de otimismo escapista, que o sujeito possa ativar os mecanismos dialéticos da existência, capazes de fazer com que, aprofundando-se, uma coisa reverta-se em seu oposto.
No grande romance de Milton Hatoum, Dois irmãos, Yaqub e Omar são os filhos gêmeos de Zana. Porque quase morreu durante o parto, e teve saúde frágil em seus primeiros meses, Omar tornou-se o filho preferido de Zana, tratado por ela à base de uma liberdade irrestrita. Ao contrário, Yaqub sempre sentiu-se preterido no amor materno. No início de suas adolescências, os irmãos interessaram-se pela mesma menina. Numa tarde, em meio a uma festa, Omar a flagra beijando seu irmão; impetuoso e inconsequente, quebra uma garrafa e com ela dá uma estocada certeira no rosto de Yaqub, abrindo-lhe um rasgo sangrento.
Temendo que o conflito entre os gêmeos se acirrasse por causa da garota, seus pais decidem mandá-los para sua aldeia natal, no Líbano. Zana, contudo, incapaz de separar-se do filho predileto, convence o marido a despachar apenas Yaqub. Assim, consuma-se uma injustiça que para sempre determinaria a vida da família: Yaqub, o inocente, o preterido, é punido com o exílio forçado de cinco anos numa aldeia remota no Líbano.
Lá, não responde às cartas da mãe. As poucas notícias dele que chegam descrevem-no em cena estoica: sentado no chão, lendo um livro, comendo figos secos. Quando retorna a Manaus, para voltar a viver com os pais, é um adolescente arredio e silencioso. Zana, em interpretação conveniente a seu autoengano, acredita que o silêncio se deve ao esquecimento do português. Mas a recusa de Yaqub se estende a todos os domínios de sua antiga existência: deixa de frequentar os bailes da província, não vai a festas, não bebe, não encontra os velhos amigos. Fica em casa, solitário, varando as noites em meio a livros, estudando.
O que aí está em funcionamento é precisamente o processo, transformador, do pensamento negativo. Yaqub prepara-se para morrer, isto é, para aniquilar sua antiga e estruturalmente condenada vida de filho preterido, intimidado, sujeito a injustiças. Não é fácil morrer. Morrer é uma arte: a etapa decisiva do pensamento negativo.
Yaqub, após a injustiça do exílio, não deixa que se dissipe - em bebedeiras ou pensamento positivo - a energia negativa de sua revolta. Concentra-a, retesa-a com um silêncio blindado. Em seguida, valendo-se dessa energia, começa a dar um conteúdo positivo à sua revolta: estuda com afinco para ser engenheiro, prepara as condições objetivas, materiais e psíquicas, de sua transformação. Essa etapa, de recusa obstinada às forças dissipadoras de sua antiga existência, deve ser compreendida como uma ascese. A ascese é o movimento que visa à ampliação de poderes do sujeito, por meio da renúncia às tentações que enfraquecem suas capacidades e da conquista de virtudes que as fortalecem.
Munido da coluna de força propiciada pela ascese, no momento em que as condições objetivas básicas foram alcançadas - um convite para um emprego ainda modesto em São Paulo -, Yaqub encara a mãe de frente e comunica-lhe que está indo embora. Esse momento deve ser compreendido como o momento do ato. Um ato não é uma ação qualquer; é uma ação que consuma uma preparação simbólica, psíquica, e que finalmente se efetiva na realidade externa, transformando a um tempo a vida subjetiva e objetiva da pessoa que o realiza.
Mas um ato só se sustenta se tiver sido preparado por todas as etapas do pensamento negativo; caso contrário, dá-se um ato em falso. Não estivesse cingido pela armadura ascética, Yaqub teria sucumbido à tentativa da mãe de retê-lo. Por isso é preciso morrer: um homem que já morreu não pode ser atingido por um mundo que não é mais o seu.
Tivesse, em vez de encarar a via árdua de seu processo negativo, preferido o consolo fácil do pensamento positivo, Yaqub não teria sido capaz de implodir suas estruturas, que lhe retiravam a potência de agir e o condenava a uma existência passiva. Pode ser que em determinadas situações da vida o pensamento positivo seja recomendado (diante, por exemplo, de doenças graves). Mas, naquelas situações em que rodamos em círculos dentro de labirintos psíquicos, pensar que eles não existem não ajuda. O pensamento negativo é a melhor, se não a única saída: é preciso concentrar as forças para quebrar o muro.

Monday, October 7, 2013

ai, a morte

Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

[Mia Couto]

Monday, November 26, 2012

O Afinador de Silêncios


“Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.


Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”


- Mia Couto, no livro "Antes de Nascer o Mundo".

Saturday, November 10, 2012

a arte de fazer nadas

crédito do título para Susanita

Sunday, October 28, 2012

as coisas simples

Canción de las simples cosas
Mercedes Sosa

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
Lo mismo que un árbol en tiempos de otoño se quedan sin hojas.
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.
Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,
Y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.
Demorate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
Donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.